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Financeiro

Gestão financeira de clínica: caixa, DRE, indicadores e preço

Como organizar a gestão financeira da clínica: fluxo de caixa, contas, DRE, indicadores e como calcular o preço da consulta com um exemplo resolvido.

Gestão financeira de clínica é saber, todo mês, quanto entrou, quanto saiu, quanto ainda vai entrar e sair, e se a operação dá lucro. Na prática são cinco rotinas: separar o dinheiro da clínica do dinheiro pessoal, registrar todo recebimento e toda despesa, controlar contas a pagar e a receber, fechar um DRE mensal e acompanhar poucos indicadores (ocupação da agenda, taxa de falta, ticket médio, margem e prazo de recebimento). Com esses números em mãos, o preço da consulta deixa de ser chute: ele sai do custo por hora da clínica, dos custos variáveis do atendimento e da margem desejada, como no exemplo calculado mais abaixo.

1. Separe as contas

Antes de qualquer planilha ou sistema: conta bancária da clínica separada da conta pessoal. Os sócios e profissionais recebem da clínica por pró-labore, distribuição de lucro ou repasse, nunca pagando contas pessoais direto do caixa da clínica. Sem essa separação, nenhum dos números abaixo é confiável.

2. Fluxo de caixa

Fluxo de caixa é o registro das entradas e saídas de dinheiro pela data em que acontecem de verdade. Ele responde a uma pergunta: vai ter dinheiro para pagar as contas do mês que vem?

Um fluxo de caixa útil tem duas partes:

  • realizado: o que já entrou e saiu, conferido com o extrato bancário;
  • previsto: o que vai entrar (parcelas de cartão, repasses de convênio, pacientes que vão pagar depois) e o que vai sair (aluguel, salários, impostos, fornecedores, repasses).

O Sebrae tem uma ferramenta de fluxo de caixa que ajuda quem ainda está começando a organizar entradas e saídas.

Caixa e competência são coisas diferentes

VisãoPergunta que respondeExemplo
CaixaQuando o dinheiro entrou ou saiu?Procedimento de março pago em 3 vezes entra em março, abril e maio
CompetênciaA que mês pertence a receita ou a despesa?O mesmo procedimento é receita de março

O fluxo de caixa usa a visão de caixa. O DRE usa a de competência. A clínica precisa das duas: uma diz se vai faltar dinheiro, a outra diz se o negócio dá lucro.

3. Contas a pagar e a receber

A receber: consultas e procedimentos realizados e ainda não pagos, parcelas de cartão, faturas de convênio enviadas. Para cada item: valor, vencimento, origem. Revise toda semana o que venceu e não entrou.

A pagar: fornecedores, aluguel, salários, impostos, repasses, sistemas. Despesas recorrentes (as que se repetem todo mês) devem ser cadastradas uma vez e geradas automaticamente, para não serem esquecidas.

4. DRE: a clínica dá lucro?

O DRE (Demonstrativo do Resultado do Exercício) organiza receitas e despesas de um período em uma sequência que termina no resultado. Um modelo simples para clínica:

LinhaO que entra
Receita brutaConsultas, procedimentos, convênios
(-) DeduçõesImpostos sobre a receita, estornos, glosas
= Receita líquida
(-) Custos variáveisRepasse aos profissionais, material, taxas de cartão
= Margem de contribuiçãoO que sobra de cada atendimento para pagar a estrutura
(-) Despesas fixasAluguel, salários da equipe, sistemas, contador, energia
= Resultado operacional
(-) Despesas financeirasJuros, tarifas bancárias
= Resultado do períodoLucro ou prejuízo

Feche o DRE todo mês e compare com o mesmo mês do ano anterior e com a média dos últimos meses. Mês isolado engana: um mês com muitos dias úteis parece melhor do que é.

5. Indicadores que valem acompanhar

Poucos e bem medidos valem mais do que um painel cheio.

IndicadorContaO que mostra
Ocupação da agendaHorários ocupados ÷ horários disponíveisSe há espaço para crescer sem aumentar estrutura
Taxa de faltaFaltas ÷ consultas marcadas (sem cancelamentos)Quanto da agenda se perde sem aviso
Ticket médioReceita ÷ número de atendimentosValor médio de cada atendimento
Margem de contribuição(Receita líquida - custos variáveis) ÷ receita líquidaQuanto cada real faturado ajuda a pagar a estrutura
Ponto de equilíbrioDespesas fixas ÷ margem de contribuição percentualQuanto precisa faturar para não ter prejuízo
Prazo médio de recebimentoMédia de dias entre o atendimento e o dinheiroPressão sobre o caixa
InadimplênciaValor vencido e não pago ÷ total a receberDinheiro que está escapando

A taxa de falta tem armadilhas de medição; o método está em taxa de falta: como medir. Para ver quanto as faltas custam, use a calculadora de faltas.

6. Como precificar a consulta

O preço da consulta precisa cobrir três coisas: a parte da estrutura que aquele atendimento usa, os custos que só existem porque o atendimento aconteceu, e a margem. A conta passa por quatro passos.

Passo 1: despesas fixas mensais

Tudo que a clínica paga mesmo sem atender ninguém: aluguel, condomínio, salários e encargos da equipe, contador, sistemas, energia, internet, limpeza.

Passo 2: horas que de fato são vendidas

Não use as horas em que a clínica está aberta. Use as horas que realisticamente são ocupadas, descontando intervalos, faltas e horários vazios.

Passo 3: custo fixo por hora ocupada

Despesas fixas ÷ horas ocupadas no mês. Multiplique pela duração da consulta.

Passo 4: preço

Some os custos variáveis em reais (material) e divida pelo que sobra depois dos custos em percentual (impostos, taxa de cartão, repasse) e da margem desejada:

Preço = (custo fixo da consulta + custo variável em reais) ÷ (1 - percentuais variáveis - margem)

Exemplo resolvido

Os números abaixo são ilustrativos. Troque pelos da sua clínica e pela alíquota de impostos que o seu contador indicar.

ItemValor no exemplo
Despesas fixas mensaisR$ 30.000
Consultórios2
Horas de atendimento por dia, por consultório8
Dias de atendimento no mês21
Horas disponíveis2 × 8 × 21 = 336 horas
Ocupação realista75%
Horas ocupadas336 × 75% = 252 horas
Custo fixo por hora ocupadaR$ 30.000 ÷ 252 = R$ 119,05
Duração da consulta30 minutos
Custo fixo da consultaR$ 119,05 ÷ 2 = R$ 59,52
Material por consultaR$ 5,00
Impostos sobre a receita10%
Taxa média de cartão3%
Repasse ao profissional40%
Margem desejada15%

Conta:

  • custos em reais: R$ 59,52 + R$ 5,00 = R$ 64,52
  • percentuais: 10% + 3% + 40% + 15% = 68%
  • preço: R$ 64,52 ÷ (1 - 0,68) = R$ 64,52 ÷ 0,32 = R$ 201,63

Conferindo para onde vai cada real de uma consulta de R$ 201,63:

DestinoValor
Impostos (10%)R$ 20,16
Taxa de cartão (3%)R$ 6,05
Repasse (40%)R$ 80,65
MaterialR$ 5,00
Estrutura (custo fixo da consulta)R$ 59,52
Margem (15%)R$ 30,24
TotalR$ 201,62

A diferença de um centavo é arredondamento.

O que o exemplo ensina

  • A ocupação pesa muito. Com 60% de ocupação em vez de 75%, as horas ocupadas caem para 201,6, o custo fixo por hora sobe para R$ 148,81 (R$ 74,40 por consulta) e o preço necessário vai para (R$ 74,40 + R$ 5,00) ÷ 0,32 = R$ 248,13. Encher a agenda, e reduzir faltas, muitas vezes rende mais do que subir o preço.
  • O repasse é o maior percentual. Pequenas mudanças nele mudam muito o preço. Veja repasse médico.
  • O preço calculado é o piso, não o preço final. O preço de mercado na sua região, o valor percebido pelo paciente e a sua estratégia definem quanto acima do piso cobrar. Se o mercado não paga o piso, o problema está no custo ou na ocupação, não no preço.

Procedimentos

A mesma lógica vale para procedimentos, com dois cuidados: o material costuma pesar muito mais, e a duração inclui preparo da sala e limpeza. Calcule cada procedimento separadamente.

Convênio

No convênio, o preço é definido pela operadora. A conta acima serve para saber se o valor pago cobre o custo, e quanto da agenda faz sentido dedicar a cada convênio.

Rotina financeira da clínica

FrequênciaO que fazer
Todo diaLançar recebimentos do dia e conferir com o caixa e a maquininha
Toda semanaRevisar contas a receber vencidas e contas a pagar da semana seguinte
Todo mêsConciliar com o extrato bancário, fechar o DRE, pagar repasses, olhar os indicadores
Todo trimestreRevisar preços, custos fixos e contratos com convênios
Todo anoPlanejamento com o contador: regime tributário, reajustes, investimentos

Erros comuns

  • misturar conta pessoal e da clínica;
  • olhar só o saldo do banco, sem previsão de entradas e saídas;
  • tratar faturamento como lucro;
  • definir preço copiando o concorrente, sem saber o próprio custo;
  • ignorar a taxa de falta, que é horário pago pela estrutura e não vendido;
  • lançar despesas só quando lembra, em vez de cadastrar as recorrentes;
  • não conferir o que o convênio pagou contra o que foi faturado.

Perguntas frequentes

Preciso de contador se tenho um sistema financeiro?

Sim. O sistema organiza os números da gestão; o contador cuida de impostos, folha, obrigações acessórias e do regime tributário. Os dois se complementam.

Com que frequência reajustar o preço da consulta?

Revise a conta pelo menos uma vez por ano, ou sempre que um custo fixo grande mudar (aluguel, folha). Reajuste com aviso prévio aos pacientes.

Vale a pena dar desconto à vista?

Faça a conta: o desconto precisa ser menor do que o custo do cartão mais o custo de esperar o dinheiro. Se for maior, a clínica perde.

Clínica pequena precisa de DRE?

Precisa, e é mais simples do que parece. Mesmo uma tabela com as linhas acima, preenchida todo mês, já mostra se a clínica dá lucro e onde o dinheiro está indo.

Leia também

  • Quanto custa uma falta na clínica e como calcular
  • Faturamento por profissional: como acompanhar na clínica
  • Taxa de ocupação da agenda: o que é e como calcular

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