Anamnese: o que é, estrutura, perguntas por especialidade e modelo
O que é anamnese, as partes de uma anamnese completa, perguntas por especialidade, um modelo pronto para adaptar e cuidados com a anamnese digital.
Anamnese é a entrevista que o profissional de saúde faz com o paciente para reconstruir a história do problema e da saúde dele: o que está sentindo, desde quando, como evoluiu, o que já tentou, que doenças teve, que remédios usa, que alergias tem, como vive e o que existe na família. Ela segue uma estrutura conhecida (identificação, queixa principal, história da doença atual, revisão de sistemas, antecedentes pessoais e familiares, hábitos e contexto social), adaptada a cada especialidade. Para médicos, a anamnese é item obrigatório do prontuário segundo a Resolução CFM 1.638/2002. Abaixo estão a estrutura completa, perguntas por especialidade, um modelo pronto para adaptar e os cuidados para fazer a anamnese em formato digital.
Para que serve a anamnese
- Orientar o raciocínio clínico. A maior parte das hipóteses nasce da história, antes do exame físico e dos exames complementares.
- Evitar erro. Alergia, medicamento em uso e doença prévia mudam a conduta.
- Registrar. A anamnese fica no prontuário e serve para o próprio profissional, para a equipe e, se for o caso, como documento.
- Criar vínculo. É o primeiro momento em que o paciente é ouvido com atenção.
O que a norma diz
Para a medicina, a Resolução CFM 1.638/2002, que define o prontuário médico, lista no art. 5º os itens que devem constar obrigatoriamente do prontuário em qualquer suporte, eletrônico ou papel. Entre eles estão a anamnese, o exame físico, os exames complementares solicitados e seus resultados, as hipóteses diagnósticas, o diagnóstico definitivo e o tratamento.
Outras profissões da saúde têm normas próprias do seu conselho sobre registro do atendimento. Consulte a do seu conselho de classe. O prontuário como um todo está em prontuário eletrônico.
A estrutura de uma anamnese completa
1. Identificação
Nome, data de nascimento, sexo, profissão, naturalidade, estado civil, com quem mora, contato. Alguns itens parecem burocráticos, mas mudam a interpretação: profissão sugere exposições, naturalidade sugere doenças regionais.
2. Queixa principal (QP)
O motivo da consulta, nas palavras do paciente e com a duração. Curta.
Exemplo: "Dor de cabeça há três semanas."
3. História da doença atual (HDA)
O centro da anamnese. Conte a história em ordem cronológica, do estado habitual de saúde até hoje. Para cada sintoma, um roteiro útil:
| Pergunta | O que investiga |
|---|---|
| Quando começou? | Início e duração |
| Começou de repente ou aos poucos? | Modo de instalação |
| Onde é? Vai para algum lugar? | Localização e irradiação |
| Como é? | Característica (aperto, pontada, queimação) |
| Qual a intensidade? | Escala de 0 a 10, impacto nas atividades |
| Melhora ou piora com quê? | Fatores de alívio e de piora |
| Vem acompanhado de algo? | Sintomas associados |
| Como evoluiu desde o início? | Piora, melhora, crises |
| O que já fez? | Tratamentos, exames e resultados |
4. Revisão de sistemas (interrogatório sistemático)
Perguntas rápidas por aparelho, para achar o que o paciente não contou espontaneamente: geral (febre, perda de peso, cansaço), pele, cabeça e pescoço, cardiovascular, respiratório, digestivo, urinário, genital, musculoesquelético, neurológico, psíquico.
5. Antecedentes pessoais
- doenças anteriores e crônicas;
- cirurgias e internações;
- medicamentos em uso, com dose;
- alergias (a quê e qual reação);
- vacinação;
- para mulheres, quando pertinente: história ginecológica e obstétrica.
6. Antecedentes familiares
Doenças em pais, irmãos e filhos, com a idade em que apareceram: doenças cardiovasculares, diabetes, câncer, doenças psiquiátricas, doenças genéticas.
7. Hábitos de vida
Alimentação, atividade física, sono, tabagismo, consumo de álcool e outras substâncias, uso de telas, quando relevante.
8. Contexto social
Moradia, trabalho, rede de apoio, condições financeiras para seguir o tratamento. Muitas vezes explica por que o tratamento anterior não funcionou.
Perguntas por especialidade
A estrutura básica se adapta. Abaixo, o que cada área costuma acrescentar.
Clínica geral
- "O que mais incomoda você hoje?"
- "Que remédios você toma, inclusive os sem receita e os naturais?"
- "Quando foi seu último exame de rotina?"
- "Alguém na família teve infarto, derrame, diabetes ou câncer?"
Odontologia
- "Sente dor ao mastigar, ao tomar algo gelado ou quente?"
- "A gengiva sangra ao escovar?"
- "Range ou aperta os dentes? Acorda com dor no rosto?"
- "Já teve reação à anestesia odontológica?"
- "Usa algum medicamento que afeta a coagulação?"
- "Quando foi a última consulta com dentista?"
Psicologia
- "O que trouxe você aqui agora?"
- "Desde quando você percebe isso?"
- "Como está o sono, o apetite e a disposição?"
- "Como estão a família, o trabalho, os estudos, as relações?"
- "Já fez psicoterapia ou tratamento psiquiátrico antes?"
- "Usa alguma medicação?"
- "Em algum momento pensou em se machucar?" (pergunta que precisa ser feita com cuidado e com plano de conduta)
Dermatologia
- "Onde começou a lesão e como ela mudou?"
- "Coça, dói, sangra?"
- "Que produtos usa na pele, inclusive novos?"
- "Quanto se expõe ao sol e usa protetor?"
- "Alguém na família teve câncer de pele?"
Nutrição
- "Conte o que você comeu ontem, do acordar até dormir." (recordatório de 24 horas)
- "Quais são seus horários de refeição?"
- "Quanta água você bebe por dia?"
- "Tem alguma alergia ou intolerância alimentar?"
- "Qual é o seu objetivo com o acompanhamento?"
- "Como está o intestino?"
Fisioterapia
- "Onde é a dor ou a limitação, e o que você não consegue fazer por causa dela?"
- "Como aconteceu? Teve trauma?"
- "Que movimentos pioram e quais aliviam?"
- "Já fez fisioterapia antes? Para quê?"
- "Tem exames de imagem?"
- "Qual é seu objetivo: voltar a correr, trabalhar sem dor, subir escada?"
Completa, rápida ou de retorno
Nem toda consulta pede a mesma anamnese.
| Tipo | Quando usar | O que inclui |
|---|---|---|
| Completa | Primeira consulta | Todos os itens da estrutura |
| Rápida | Queixa aguda e pontual | Identificação, QP, HDA dirigida, alergias e medicamentos |
| Retorno | Acompanhamento | O que mudou desde a última consulta, adesão ao tratamento, efeitos colaterais, resultados de exames |
Modelo de anamnese para adaptar
IDENTIFICAÇÃO
Nome: Data de nascimento:
Sexo: Profissão: Naturalidade:
Estado civil: Mora com: Contato:
QUEIXA PRINCIPAL
(motivo da consulta e duração)
HISTÓRIA DA DOENÇA ATUAL
Início: Modo de instalação:
Localização e irradiação:
Característica: Intensidade (0 a 10):
Fatores de melhora: Fatores de piora:
Sintomas associados:
Evolução:
Tratamentos e exames já feitos:
REVISÃO DE SISTEMAS
Geral: Pele: Cabeça e pescoço:
Cardiovascular: Respiratório: Digestivo:
Urinário: Genital: Musculoesquelético:
Neurológico: Psíquico:
ANTECEDENTES PESSOAIS
Doenças:
Cirurgias e internações:
Medicamentos em uso (nome e dose):
Alergias (agente e reação):
Vacinação:
ANTECEDENTES FAMILIARES
(doença, parentesco, idade de início)
HÁBITOS DE VIDA
Alimentação: Atividade física: Sono:
Tabagismo: Álcool: Outras substâncias:
CONTEXTO SOCIAL
Moradia: Trabalho: Rede de apoio:
OBSERVAÇÕES
Adapte retirando o que não se aplica à sua área e acrescentando as perguntas da seção anterior.
Anamnese digital: vantagens e cuidados
Fazer a anamnese direto no sistema, em vez de papel, traz ganhos claros:
- campos estruturados, que lembram o profissional do que perguntar;
- leitura rápida no retorno, sem procurar a ficha;
- alergias e medicamentos visíveis em todo atendimento;
- modelos por especialidade e por tipo de consulta;
- histórico que não se perde nem fica ilegível.
E pede alguns cuidados:
- Dado sensível. Informação de saúde é dado pessoal sensível pela LGPD (art. 5º, II). Acesso só para quem precisa, com registro de quem acessou. Detalhes em LGPD na saúde.
- Formulário que o paciente preenche sozinho ajuda, mas não substitui a conversa. Confira as respostas com ele.
- Modelo longo demais vira campo em branco. Prefira poucas perguntas obrigatórias e o resto opcional.
- Copiar e colar a anamnese anterior no retorno é tentador e perigoso: registre o que mudou.
Erros comuns
- fazer perguntas fechadas demais ("a dor é forte?") em vez de abertas ("como é a dor?");
- interromper o paciente nos primeiros segundos;
- registrar a interpretação em vez do que o paciente disse;
- esquecer medicamentos sem receita, fitoterápicos e suplementos;
- anotar "nega alergias" sem ter perguntado;
- não atualizar a anamnese nos retornos.
Perguntas frequentes
Anamnese e evolução são a mesma coisa?
Não. A anamnese é a história colhida, principalmente na primeira consulta. A evolução registra cada atendimento seguinte. O formato mais usado para a evolução é o SOAP, explicado em evolução SOAP.
O paciente pode preencher a anamnese antes da consulta?
Pode, e economiza tempo. O profissional confere e completa na consulta.
Quanto tempo a anamnese deve guardar?
Ela faz parte do prontuário. A Lei 13.787/2018 só permite eliminar prontuários depois de decorrido o prazo mínimo de 20 anos a partir do último registro (art. 6º). Confira também as regras do seu conselho de classe.
Existe uma anamnese "certa"?
Existe uma estrutura consagrada, e cada área adapta. O melhor modelo é o que a equipe consegue preencher de verdade em todos os atendimentos.